O que faz milhões de pessoas buscarem novas formas de renda? Por que o mercado digital continua crescendo mesmo em um cenário de instabilidade econômica? E qual será o papel da inteligência artificial em uma sociedade cada vez mais marcada pela ansiedade e pela sobrecarga de informação?
Essas foram algumas das reflexões levadas pela empresária, mentora e palestrante Michele Bouvier Sollack ao palco do BAVE EUA 2026, evento realizado nos Estados Unidos pelo mentor do programa Avengers Aceleração de Negócios Digitais, Fábio Soares.
Em sua primeira palestra internacional, a CEO do C7Grupo apresentou uma análise sobre os impactos do comportamento psicossocial, das transformações políticas globais e do avanço da inteligência artificial na chamada nova economia digital.
Especialista em desenvolvimento de negócios femininos e saúde financeira para mulheres, Michele defendeu que a expansão do mercado digital não pode ser explicada apenas pela tecnologia. Para ela, o crescimento do setor está diretamente relacionado às mudanças emocionais e sociais vividas pela população nos últimos anos.
“Quando observamos os dados, percebemos que as pessoas não estão procurando apenas uma nova profissão. Elas estão procurando previsibilidade. Existe uma necessidade crescente de recuperar a sensação de controle sobre o próprio futuro. O mercado digital cresce porque passou a ocupar esse espaço de adaptação, aprendizado e construção de autonomia”, afirma.
A era da incerteza
Um dos pontos centrais da palestra foi a análise sobre o atual estado emocional da sociedade. Michele apresentou pesquisas que apontam a palavra “incerteza” como uma das principais definições do momento vivido globalmente, superando temas como inteligência artificial, adaptação e burnout.
Segundo ela, esse cenário ajuda a explicar fenômenos econômicos observados em diferentes países.
“A incerteza não é apenas uma percepção emocional. Ela produz efeitos concretos nas decisões de consumo, carreira e empreendedorismo. Quando as estruturas tradicionais deixam de oferecer segurança, as pessoas passam a buscar alternativas que permitam construir novas fontes de renda e novas competências.”
Na avaliação da especialista, o avanço da Creator Economy está diretamente ligado a esse movimento.
“O digital deixou de representar apenas oportunidade. Em muitos casos, ele passou a representar uma estratégia de sobrevivência profissional e de requalificação para uma economia que muda cada vez mais rápido.”
O esgotamento das promessas rápidas
Outro tema abordado durante a apresentação foi a transformação do comportamento dos consumidores digitais.
Dados analisados por Michele apontam que mais da metade das pessoas já se sentiram tristes ou frustradas ao consumir conteúdos nas redes sociais. O excesso de comparação, a exposição constante a padrões irreais de sucesso e a sensação de insuficiência têm provocado mudanças importantes na forma como o público se relaciona com influenciadores, especialistas e marcas.
Segundo ela, o mercado vive uma mudança estrutural.
“Durante muito tempo a atenção foi o principal ativo da internet. Hoje, a confiança ocupa esse espaço. O consumidor está mais criterioso porque já experimentou o excesso de informação. Ele não procura mais apenas conteúdo. Procura clareza, profundidade, método e resultado.”
Para Michele, esse movimento marca uma nova etapa da economia digital.
“Estamos saindo da era das promessas aceleradas para entrar na era da retenção, da comunidade e da entrega consistente. Quem não compreender essa mudança terá dificuldade para sustentar crescimento nos próximos anos.”
Inteligência artificial e vantagem competitiva
A inteligência artificial também ocupou papel central na palestra. Michele apresentou uma leitura que vai além da substituição de funções e destaca a tecnologia como aceleradora de produtividade e eficiência.
“O maior risco hoje não é a inteligência artificial. É permanecer operando como se ela não existisse. A discussão deixou de ser tecnológica e passou a ser estratégica. Quem souber combinar tecnologia com capacidade humana de interpretação, relacionamento e liderança terá uma vantagem competitiva significativa.”
Segundo ela, o futuro pertencerá aos profissionais capazes de transformar conhecimento em aplicação prática.
“A inteligência artificial aumenta a velocidade. Mas continua sendo o ser humano que define direção, propósito e tomada de decisão.”
O desafio brasileiro na nova economia
Durante sua participação no evento, Michele também chamou atenção para o papel do Brasil no cenário global da Creator Economy. Embora o país seja reconhecido pela força de seus criadores de conteúdo e infoprodutores, ela avalia que o principal desafio para os próximos anos será estrutural.
“O Brasil nunca teve problema de criatividade. O desafio está na construção de negócios sustentáveis. Educação financeira, processos, gestão e retenção de clientes ainda são gargalos importantes para boa parte dos empreendedores digitais.”
Para a especialista, o amadurecimento do setor dependerá menos da capacidade de viralizar e mais da capacidade de construir relações duradouras.
“A próxima fase da economia digital será definida pela confiança. Em um ambiente saturado de informação, confiança passa a ser um ativo econômico. E construir confiança exige coerência, continuidade e capacidade real de entrega.”
Ao encerrar sua participação no BAVE EUA 2026, Michele defendeu que inteligência artificial, educação digital, comunidades e criadores de conteúdo deixaram de representar apenas tendências de mercado para assumir um papel estrutural na economia contemporânea.
“Mais do que ferramentas, esses elementos estão se tornando parte da infraestrutura que sustenta desenvolvimento profissional, geração de renda e mobilidade social. Foi essa reflexão que eu quis levar para o palco: entender que as grandes transformações tecnológicas só fazem sentido quando compreendemos também as transformações humanas que acontecem por trás delas.”









