Uma nova pílula de uso diário pode ajudar pessoas que interromperam o tratamento com canetas emagrecedoras a manterem boa parte do peso perdido. A conclusão aparece em um estudo publicado na revista científica Nature Medicine, que avaliou os efeitos do medicamento oral orforglipron em pacientes que já haviam utilizado remédios injetáveis para emagrecimento.
O trabalho foi financiado pela farmacêutica Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, um dos medicamentos mais populares no tratamento da obesidade. A pesquisa analisou adultos que já haviam perdido peso após mais de um ano utilizando medicamentos à base de GLP-1, como a tirzepatida e a semaglutida.
A principal preocupação dos especialistas é o chamado “efeito rebote”, quando parte significativa do peso perdido retorna após a suspensão dos remédios. Segundo os resultados do estudo, o comprimido oral conseguiu reduzir esse risco em comparação com pacientes que não receberam tratamento adicional.
O orforglipron já está disponível nos Estados Unidos e poderá chegar ao mercado britânico em breve. A expectativa é que a formulação oral amplie o acesso aos tratamentos para obesidade, especialmente entre pacientes que evitam aplicações injetáveis.
Segundo o dermatologista Stanley Bessa, com mais de 25 anos de experiência, as chamadas canetas emagrecedoras têm sido cada vez mais utilizadas no tratamento da obesidade e do sobrepeso. Contudo, apesar de seus resultados positivos, esse tratamento pode causar efeitos adversos. Um desses efeitos que tem gerado preocupação nos consultórios é a queda de cabelo associada ao uso desses medicamentos.
Como funciona o medicamento oral
O orforglipron atua de maneira semelhante às canetas emagrecedoras já conhecidas no mercado. O medicamento imita um hormônio natural responsável por controlar o apetite, prolongando a sensação de saciedade e reduzindo a fome.
Na prática, o efeito é parecido com o observado em remédios como Wegovy e Mounjaro. A diferença é que o tratamento ocorre por meio de comprimidos ingeridos diariamente, sem necessidade de injeções.
Para especialistas, a praticidade pode ser um diferencial importante. Marie Spreckley, pesquisadora da Universidade de Cambridge e especialista em controle de peso, afirma que a possibilidade de tomar um comprimido pode ser mais atrativa para parte dos pacientes.
Apesar disso, ela ressalta que ainda não existem respostas definitivas sobre a duração dos benefícios ao longo dos anos.
“Este estudo reforça o crescente reconhecimento de que a obesidade é uma doença crônica e recorrente que geralmente requer tratamento e apoio contínuos”, afirmou.
Os pesquisadores também destacam que ainda será necessário acompanhar os pacientes por períodos maiores para entender por quanto tempo o medicamento precisará ser utilizado. Em alguns casos, o tratamento pode se tornar permanente.
Estudo avaliou pacientes após interrupção das canetas
A pesquisa reuniu 376 participantes nos Estados Unidos. Todos haviam utilizado medicamentos injetáveis para perda de peso durante mais de um ano e obtido resultados considerados bem-sucedidos.
Após esse período, os pacientes interromperam as aplicações e passaram a receber, diariamente, uma cápsula de orforglipron ou placebo. Nenhum dos participantes sabia qual tratamento estava recebendo.
Ao final de um ano, os resultados mostraram diferença significativa entre os grupos. Os pacientes que utilizaram o comprimido conseguiram preservar mais de 70% da perda de peso anterior.
Já entre aqueles que receberam placebo, a manutenção variou entre 38% e 50%.
Além do controle do peso, os pesquisadores observaram manutenção de indicadores metabólicos importantes, como pressão arterial, níveis de glicose e perfil lipídico.
Simon Cork, pesquisador da Anglia Ruskin University, classificou o trabalho como relevante justamente por enfrentar uma das principais limitações dos medicamentos à base de GLP-1.
“Os pacientes experimentam uma recuperação significativa de peso após interrompê-los”, explicou.
Segundo ele, os efeitos metabólicos preservados durante o estudo podem ajudar na redução de riscos associados à obesidade, incluindo doenças cardiovasculares.
Preço menor pode ampliar acesso ao tratamento
Outro fator que chama atenção no mercado é o custo. Nos Estados Unidos, o orforglipron chega ao consumidor com preço inferior ao das canetas emagrecedoras atuais.
A dose mais baixa custa cerca de US$ 149 por mês, valor equivalente a aproximadamente R$ 720. Já alguns medicamentos injetáveis ultrapassam US$ 1 mil mensais, perto de R$ 4,8 mil na conversão atual.
O tema ganhou destaque recentemente após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar acordos voltados à redução dos custos de medicamentos populares para perda de peso.
A concorrência nesse mercado também aumentou. A farmacêutica Novo Nordisk, responsável pelo Wegovy, já obteve aprovação nos EUA para uma versão oral do tratamento.
Especialistas avaliam que a chegada de comprimidos pode representar uma mudança importante no tratamento da obesidade, tanto pela praticidade quanto pelo potencial de reduzir custos. Ainda assim, médicos alertam que os medicamentos não substituem acompanhamento clínico, mudanças de hábitos e monitoramento contínuo da saúde.
Fonte: BBC Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/handd-com-medicamento_8288411.htm









