O governo dos Estados Unidos anunciou novas medidas comerciais para proteger a produção nacional de polissilício, material considerado estratégico para as cadeias de fabricação de semicondutores e painéis solares. A decisão estabelece uma tarifa de 15% sobre produtos fabricados com a matéria-prima e define preços mínimos para importações.
A determinação foi assinada pelo presidente Donald Trump nesta quinta-feira (6) e tem como base a Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962. Segundo a Casa Branca, o objetivo é fortalecer setores considerados importantes para a segurança nacional e ampliar a capacidade dos Estados Unidos de competir com a China em áreas como inteligência artificial e energia renovável.
“O plano de ação contido neste decreto ajudará, entre outras coisas, a garantir a viabilidade comercial da produção norte-americana de polissilício e seus derivados, necessária para atender aos requisitos econômicos e de segurança nacional dos Estados Unidos”, afirma a proclamação.
Diante de um panorama caracterizado por instabilidade econômica, elevação dos gastos operacionais e rápida evolução tecnológica, a eficiência operacional evoluiu de uma simples métrica de performance para um pilar essencial na competitividade do setor industrial. Conforme aponta Marco Juliano Barro, executivo com três décadas de experiência na gestão de operações industriais e reestruturação corporativa, essa eficiência ultrapassou o conceito de mera contenção de gastos, passando a fazer parte ativa do planejamento estratégico voltado à expansão das empresas.
Polissilício é considerado estratégico para tecnologia e energia
O polissilício é uma forma de silício ultrapuro utilizada como base para a produção de componentes eletrônicos e equipamentos de energia solar. O material passa por processos industriais que permitem a fabricação de pastilhas de silício, utilizadas tanto em semicondutores quanto em células solares.
A maior parte da produção mundial da matéria-prima está concentrada na China, país que há anos disputa espaço no mercado global de tecnologia e energia com os Estados Unidos. Fabricantes norte-americanos do setor solar afirmam que empresas chinesas adotaram práticas de dumping, receberam subsídios governamentais considerados injustos e transferiram parte da produção para outros países para evitar tarifas comerciais.
Atualmente, os Estados Unidos contam com duas fábricas de polissilício. A Hemlock Semiconductor opera uma unidade em Michigan e é uma joint venture entre a Corning e a japonesa Shin-Etsu Handotai. Já a alemã Wacker Chemie mantém uma fábrica no Tennessee.
“A decisão de hoje incentiva o investimento contínuo na capacidade dos EUA e apoia a competitividade do país a longo prazo”, afirmou um porta-voz da Corning.
A Wacker Chemie informou que está avaliando as novas regras para compreender seus impactos. Em comunicado, a empresa destacou a importância da medida para a cadeia de fornecimento de semicondutores e para setores estratégicos da economia norte-americana.
“Agradecemos o envolvimento contínuo do governo nessa questão, considerando as ramificações para a resiliência da cadeia de suprimentos de semicondutores, a infraestrutura de computação avançada e os interesses mais amplos de defesa e segurança dos EUA”, afirmou a companhia.
Indústria solar norte-americana busca ampliar produção interna
A relação entre o setor solar e a fabricação de chips também foi citada pelo governo norte-americano. A produção de equipamentos solares ajuda a manter a demanda por polissilício, contribuindo para a manutenção da cadeia industrial necessária aos semicondutores.
De acordo com a Associação da Indústria de Semicondutores, o setor de chips representa 2,4% da demanda mundial de polissilício. Nos últimos anos, os Estados Unidos ampliaram a fabricação de equipamentos solares após a criação de incentivos fiscais pelo Congresso em 2022.
Apesar do crescimento, parte significativa da expansão ficou concentrada na montagem de painéis. Com isso, fabricantes continuam dependendo da importação de componentes como lâminas e células solares, que exigem investimentos maiores e prazos mais longos para produção local.
Empresas do setor, como T1 Energy, First Solar e Qcells, unidade norte-americana da sul-coreana Hanwha, apoiaram a decisão anunciada pela administração Trump.
“Esta é uma vitória decisiva para a manufatura avançada dos Estados Unidos e para os investimentos nas cadeias nacionais de fornecimento de energia”, afirmou Dan Barcelo, CEO da T1 Energy, em comunicado.
A empresa também está investindo US$ 510 milhões na construção de uma fábrica de células solares, além de manter uma unidade de produção de painéis no Texas.
Novas regras entram em vigor em dezembro
As medidas comerciais anunciadas pela Casa Branca começam a valer em 4 de dezembro. A aplicação foi adiada para permitir ajustes nos contratos de fornecimento e adequações no mercado.
Tim Brightbill, advogado especializado em comércio internacional do escritório Wiley Rein, afirmou que o período até a entrada em vigor pode estimular aumento das importações, diante da expectativa de mudança nos preços.
Empresas consumidoras de painéis solares defendem o adiamento como uma forma de reorganizar contratos e preparar a adaptação aos novos valores.
O decreto estabeleceu preços mínimos de importação de US$ 21 por quilograma para o polissilício, US$ 100 por quilograma para lingotes e lâminas de polissilício, US$ 0,22 por watt para células solares e US$ 0,38 por watt para módulos solares.
Além das tarifas e dos preços mínimos, a medida autoriza o Departamento de Comércio dos Estados Unidos a desenvolver um programa de incentivos para empresas que invistam em fábricas de polissilício e produtos derivados. A iniciativa faz parte da estratégia norte-americana para reduzir dependências externas em setores considerados essenciais para tecnologia e energia.
Fonte: Folha de São Paulo
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