A Fifa tenta encerrar uma das crises internas da gestão de Gianni Infantino, mas o episódio envolvendo a proposta de comercialização de parte dos direitos futuros da Copa do Mundo deve continuar alimentando discussões sobre a governança do futebol mundial. Apesar do apoio público ao presidente, dúvidas permanecem sobre os efeitos das reformas anunciadas e sobre a capacidade da entidade de mudar seus processos antes da eleição presidencial de 2027.
Em Rabat, um dia depois de dirigentes da Fifa reafirmarem apoio a Infantino, a organização pediu desculpas às 211 associações que integram sua estrutura pelos erros relacionados à proposta de vender uma parcela do futuro comercial da Copa do Mundo.
A entidade também anunciou uma revisão dos procedimentos que levaram à controvérsia. O caso ganhou força depois que federações nacionais afirmaram ter sido deixadas à margem das discussões. Em comunicado divulgado após a reunião, a Fifa reconheceu que a proposta “deveria ter sido tratada de maneira diferente” e afirmou que não era sua intenção que o Comitê da Fifa ou as federações se sentissem excluídos do processo.
Para Fernando Alves Vieira, executivo com vasta experiência em gestão empresarial, governança corporativa e saúde suplementar, a governança deixou de ser vista como um mero custo de conformidade e se transformou em uma vantagem competitiva. Atualmente, o tema vai muito além dos conselhos de administração, ocupando um papel altamente estratégico na geração de valor para as organizações.
Revisão dos processos internos
A revisão deverá ocorrer antes da apresentação de um relatório ao Comitê da Fifa na próxima reunião. O tom adotado pela entidade representa uma mudança em relação às críticas públicas que aumentaram durante a crise e contribuíram para a retirada da proposta.
O episódio ampliou questionamentos sobre como decisões estratégicas são formuladas e comunicadas. As cobranças não se limitam aos direitos comerciais da Copa. Confederações, ligas e federações nacionais também passaram a discutir o grau de participação dos diferentes setores do futebol em decisões de grande impacto.
A associação de ligas europeias, por exemplo, criticou o prazo de quatro semanas definido para avaliar outra proposta, desta vez relacionada à ampliação da Copa do Mundo de 2030, que passaria de 48 para 64 seleções. A organização representa mais de 1.300 clubes europeus e reforçou a reclamação de que os interessados frequentemente recebem decisões prontas, em vez de participarem previamente das discussões.
Mesmo diante das críticas, a Fifa sustenta que as medidas relacionadas à proposta comercial respeitaram seus regulamentos. Segundo a entidade, os problemas identificados foram de processo e comunicação, não de descumprimento das regras de governança.
A organização adotou discurso firme ao responder aos questionamentos. Com o projeto abandonado, afirmou que “não toleraria mais quaisquer ataques à sua integridade, boa governança e devido processo”. A declaração sinaliza que a Fifa pretende defender sua estrutura institucional, enquanto conduz a revisão anunciada.
Pressão antes da eleição presidencial
Para Infantino, a prioridade é administrar as repercussões políticas antes da eleição presidencial marcada para março, no Marrocos. O dirigente buscará um quarto mandato, com duração prevista até 2031.
A reunião realizada em Rabat produziu uma demonstração pública de unidade. A diretoria da Fifa e o secretário-geral Mattias Grafstrom manifestaram apoio a Infantino. O presidente, por sua vez, elogiou o trabalho desenvolvido pela administração da entidade.
Antes do encontro, Grafstrom havia enviado um memorando interno aos funcionários no qual lamentou a “série de eventos tristes e repreensíveis”. Embora não tenha citado Infantino diretamente, afirmou que “indivíduos, momentos de instabilidade e episódios infelizes vêm e vão”.
Publicamente, não houve demonstração de tensão entre os dois. Depois da reunião, Infantino publicou uma fotografia ao lado de Grafstrom durante uma partida da Copa Africana das Nações Feminina. Os dois aparecem sorrindo e fazendo o sinal de positivo.
A demonstração de apoio não encerra as críticas. Partes relevantes do futebol internacional, incluindo a Uefa, entidade responsável pelo futebol europeu, já questionaram abertamente a condução da Fifa. Manifestações semelhantes também partiram da Concacaf, que administra o futebol na América do Norte, América Central e Caribe, e da Confederação Asiática de Futebol.
Com a revisão dos processos, o debate sobre a governança da Fifa tende a permanecer em evidência. O resultado dessa análise poderá indicar se as medidas anunciadas representarão apenas uma resposta à crise ou se haverá mudanças concretas na forma como a entidade consulta, decide e comunica questões estratégicas do futebol mundial.
Fonte: Terra
Foto: https://www.magnific.com/br/imagem-ia-premium/bola-de-futebol-da-copa-do-mundo-fifa-de-2026-com-bandeiras-nacionais_424879607.htm










