As tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros continuam influenciando o planejamento da indústria nacional e mobilizando entidades empresariais em busca de alternativas para preservar exportações e empregos. Embora os efeitos variem entre os segmentos, o cenário também desperta atenção de estados com forte presença industrial, como São Paulo, onde cadeias produtivas ligadas ao aço, calçados, móveis, máquinas, madeira e têxteis possuem importante participação na economia.
Enquanto aguardam definições sobre a política comercial norte-americana, empresas ampliam esforços para conquistar novos compradores na América Latina, Europa e Ásia. A estratégia busca reduzir a dependência do mercado dos Estados Unidos, que permanece entre os principais destinos das exportações brasileiras.
As medidas tarifárias começaram em abril de 2025, quando o governo norte-americano aplicou uma tarifa mínima de 10% sobre produtos brasileiros com base na International Emergency Economic Powers Act (IEEPA). Meses depois, foi anunciada uma sobretaxa adicional de 40% para parte da pauta exportadora.
Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou as tarifas fundamentadas na IEEPA. Entretanto, produtos enquadrados em outras legislações, como aço e alumínio, continuaram sujeitos às restrições comerciais, mantendo o ambiente de incerteza para diversos segmentos industriais.
Com uma trajetória profissional superior a 30 anos desenvolvida em corporações nacionais e de atuação global, o executivo Marco Juliano Barro detém sólida especialização nas frentes de transformação organizacional, excelência operacional e gerenciamento industrial. Em seu histórico de liderança na América Latina, exerceu os cargos de COO e CEO em estruturas produtivas no México e no Brasil, conduzindo estratégias de turnaround, expansão comercial e administração de atividades industriais com elevado nível de complexidade.
Exportações seguem sob pressão
O setor siderúrgico permanece entre os mais afetados pelas medidas. Desde junho de 2025, aço e alumínio estão sujeitos a uma tarifa de 50% baseada na Seção 232 da legislação norte-americana, mecanismo utilizado sob justificativa de segurança nacional.
Segundo dados da ApexBrasil, as exportações brasileiras de aço para os Estados Unidos passaram de US$ 3,8 bilhões em 2023 para US$ 2,8 bilhões em 2024. Em 2025, o valor caiu para US$ 2,6 bilhões. Entre janeiro e maio de 2026, os embarques totalizaram US$ 977,7 milhões.
O Brasil permanece como o segundo maior exportador de aço para os Estados Unidos, com predominância de produtos primários, segmento mais suscetível à incidência das tarifas.
“A expectativa é ser incluído na lista de isenções”, diz Fausto Cançado, presidente do Sindifer (Sindicato das Indústrias do Ferro) de Minas Gerais.
A entidade estima que, caso novas tarifas sejam confirmadas, até 55% das fábricas brasileiras de ferro-gusa poderão interromper parcial ou totalmente suas atividades.
Outro segmento relevante para a indústria paulista também acompanha o cenário com cautela. A Abimaq informou que as exportações de máquinas e equipamentos para os Estados Unidos recuaram 9,1% no último ano. Em compensação, houve crescimento das vendas para Argentina, Singapura, Peru e Chile.
Segundo a associação, esse avanço resulta tanto da recuperação econômica desses mercados quanto de mudanças temporárias nas cadeias globais de abastecimento. Ainda assim, a entidade ressalta que o setor trabalha com ciclos longos de negociação e certificação técnica, o que dificulta o redirecionamento imediato das exportações.
Diversificação ganha força entre as empresas
A indústria do couro registrou queda de 14,5% nas exportações para os Estados Unidos entre 2024 e 2025, mas ampliou as vendas para Coreia do Sul, Espanha e México.
Na indústria calçadista, os embarques ao mercado norte-americano apresentaram redução mais moderada. Mesmo assim, a Abicalçados destaca que houve crescimento expressivo das exportações destinadas a países latino-americanos.
“Não existe a possibilidade de redirecionamento das mercadorias exportadas para os Estados Unidos, pois, em sua grande maioria, são calçados desenvolvidos de acordo com a demanda daquele mercado”, diz nota assinada pelo presidente executivo da entidade, Haroldo Ferreira.
Segundo a associação, regiões produtoras como Franca, no interior paulista, além dos polos gaúchos do Vale dos Sinos e Vale do Paranhana-Encosta da Serra, podem sentir impactos mais intensos caso ocorram novas elevações tarifárias.
A indústria moveleira também vem ampliando sua estratégia de internacionalização. Após registrar crescimento de 12% nas vendas aos Estados Unidos em 2024, o setor encerrou 2025 com retração de 3,6%, totalizando US$ 76,5 milhões em exportações. Entre janeiro e maio deste ano, os embarques alcançaram cerca de US$ 20 milhões.
Mesmo com a desaceleração, aproximadamente um terço das exportações brasileiras de móveis continua destinado ao mercado norte-americano.
A Abimóvel afirma que as sucessivas alterações nas tarifas aumentaram a instabilidade nas relações comerciais. Ao mesmo tempo, empresas do setor ampliaram negócios com Uruguai, Argentina, Paraguai, Peru e Colômbia, além de reforçarem ações de inteligência comercial para ampliar presença na América Latina, Ásia e Oriente Médio.
“Não queremos abandonar mercados já consolidados, mas sim ampliá-los, ao mesmo tempo que abrimos novas frentes reduzindo riscos e dando maior estabilidade à internacionalização da indústria brasileira”, disse a Abimóvel em nota.
Na indústria têxtil, as exportações passaram de US$ 42,9 milhões no primeiro semestre de 2025 para US$ 37,8 milhões no mesmo período de 2026. A Abit informou crescimento das vendas para Paraguai, Uruguai e Equador.
Já a indústria da madeira mantém forte dependência dos Estados Unidos, que absorvem cerca de metade das exportações brasileiras de molduras de madeira. Para o setor, novas restrições poderão resultar em redução da produção, diminuição de investimentos e impactos sobre o emprego.
“Nós não temos um plano B, por ter essa distribuição bem consolidada ao redor do mundo da produção brasileira”, diz Paulo Pupo, superintendente da Abimci.
Para gestores públicos e administrações municipais, especialmente em regiões com concentração industrial, o acompanhamento desse cenário torna-se estratégico. Mudanças no comércio internacional podem influenciar investimentos privados, arrecadação, geração de empregos e o desempenho econômico dos municípios que abrigam importantes polos exportadores.
Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/vista-aerea-do-navio-de-carga-do-recipiente-navio-de-carga-do-recipiente-na-exportacao-da-importacao-logistica_2212619.htm









