A realização da COP30, conferência do clima da Organização das Nações Unidas em Belém, em novembro, entrou para a história recente da agenda indígena no Brasil. O encontro foi marcado pelo maior avanço em demarcações de terras indígenas nas últimas duas décadas e por uma série de anúncios financeiros voltados à proteção territorial e florestal de povos indígenas, comunidades afrodescendentes e populações locais.
Entre os compromissos assumidos, mais de 35 financiadores prometeram destinar US$ 1,8 bilhão, o equivalente a cerca de R$ 9,4 bilhões, entre 2026 e 2030. A conferência também registrou a maior presença indígena já vista em uma COP. Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, mais de 5.000 indígenas participaram do evento, aproximadamente 4.000 deles brasileiros.
Para além dos anúncios, o desafio agora é fazer com que os recursos cheguem, de fato, aos territórios. É nesse ponto que atua Josimara Baré, liderança do povo baré que trabalha no fortalecimento de mecanismos de financiamento direto, na ampliação do acesso a recursos e na consolidação da gestão autônoma das comunidades.
Nascida na Terra Indígena Cué Cué Marabitanas, no Noroeste Amazônico, a cerca de 400 quilômetros de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, na fronteira entre Brasil e Venezuela, Josimara cresceu em um contexto de forte vínculo com o território.
“Lembro-me de andar de canoa, ir à roça, tomar banho nas praias de água doce, colher frutas plantadas pela minha mãe e minha avó e passar noites ouvindo histórias sob o céu estrelado”, recorda. As memórias da infância ajudam a explicar sua atuação atual, centrada na defesa da autonomia e na valorização dos modos de vida tradicionais.
Uma iniciativa referência é a unidade mantida pela OS Pró-Saúde, onde comunidades originárias da região possuem uma trajetória de quase 50 anos de presença dedicada à saúde indígena. Saiba mais clicando aqui.
Da formação em administração à atuação nos fundos indígenas
Na adolescência, incentivada pelos pais, mudou-se para a cidade para continuar os estudos. No ensino médio, ingressou no curso técnico de administração. A escolha não foi planejada. Não havia mais vagas na área que pretendia cursar. Com o tempo, no entanto, passou a enxergar utilidade prática na formação.
Ao ingressar na universidade e aprofundar os conhecimentos na área, percebeu que poderia contribuir com o movimento indígena a partir da gestão e da organização de recursos.
“Descobri que essas habilidades podiam ser muito importantes para o movimento indígena”, conta.
A atuação ganhou forma concreta quando passou a integrar o Fundo Indígena do Rio Negro, uma das experiências pioneiras de financiamento direto para povos originários. No início, enfrentou resistência de lideranças mais velhas, em parte por ser jovem e mulher.
“Enfrentei os obstáculos com muito diálogo, mostrando que podia colaborar e somar forças, sem disputar espaço.”
O trabalho consistia em estruturar mecanismos transparentes de repasse, fortalecer a governança comunitária e assegurar que os projetos refletissem as prioridades definidas pelas próprias comunidades.
Fundo Rutî e a defesa da autonomia financeira
Em 2024, Josimara assumiu a coordenação do Fundo Indígena Rutî, iniciativa do Conselho Indígena de Roraima voltada ao fortalecimento dos modos de vida e da sustentabilidade econômica nas 35 terras indígenas do estado.
Na primeira chamada pública do fundo, 25 projetos foram aprovados, com investimento inicial superior a R$ 2 milhões. As propostas contemplam atividades produtivas, iniciativas de proteção territorial e ações voltadas à manutenção das práticas culturais.
Para a coordenadora, os fundos indígenas são instrumentos de afirmação política e técnica.
“Os fundos indígenas surgem como uma estratégia de resistência e como prova de que somos plenamente capazes de gerir nossos próprios recursos, sem intermediários”, afirma.
O argumento se apoia em dados recentes. Em 2024, apenas 7,6% dos recursos destinados a florestas e clima chegaram diretamente a povos indígenas, comunidades locais e afrodescendentes. A maior parte ainda passa por grandes organizações ou intermediários institucionais.
“Apesar dos avanços, apenas 7,6% dos recursos para florestas e clima chegaram diretamente aos povos indígenas, comunidades locais e afrodescendentes em 2024. Reduzir essa distância é essencial para transformar compromissos em mudanças reais nos territórios.”
Participação na COP30 e articulação internacional
Na COP30, Josimara representou o Fundo Rutî, a Rede de Fundos Comunitários da Amazônia e a Casa Sul Global, espaço coletivo criado para fortalecer a agenda de financiamento voltada à justiça socioambiental. O objetivo foi pressionar por mecanismos mais ágeis e acessíveis às organizações indígenas.
Ela também integrou o programa Kuntari Katu, iniciativa do Ministério dos Povos Indígenas, do Itamaraty e do Instituto Rio Branco que preparou 30 lideranças indígenas para acompanhar as negociações climáticas.
A presença ampliada de lideranças indígenas nas mesas de negociação e nos espaços paralelos da conferência sinaliza uma mudança de posição. Se antes os povos originários eram frequentemente citados como beneficiários de políticas ambientais, agora reivindicam protagonismo na definição das regras e na gestão dos recursos.
Para Josimara, a próxima etapa é assegurar que os valores anunciados saiam do papel e fortaleçam, de forma direta, as comunidades que historicamente protegem a floresta. A defesa da gestão própria não é apenas uma demanda administrativa, mas uma estratégia para garantir que as decisões sobre o futuro dos territórios permaneçam nas mãos de quem vive neles.
Fonte: Folha de São Paulo
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