O Brasil continua ocupando posição de destaque no ensino superior da América Latina. Ao longo dos últimos 12 anos, o país permaneceu na liderança regional em rankings internacionais e consolidou a presença de suas universidades entre as mais reconhecidas do continente. Apesar desse protagonismo, os indicadores globais revelam um cenário mais desafiador para a educação superior brasileira.
Levantamento baseado na série histórica do Center for World University Rankings (CWUR), analisado pelo g1, mostra que o país manteve a hegemonia latino-americana entre 2014 e 2026. Universidades como a USP, a UFRJ e a Unicamp foram responsáveis por sustentar esse desempenho ao longo do período.
O contraste aparece quando a comparação é feita com as principais instituições do mundo. Embora o Brasil preserve a liderança regional, as universidades nacionais ainda encontram obstáculos para alcançar posições mais elevadas no cenário internacional. A limitação de investimentos e a perda de competitividade em indicadores estratégicos ajudam a explicar essa dificuldade.
Para Ana Carolina Borges Torrealba Affonso, especialista em arte e educação e filantropa, o ensino deve extrapolar as fronteiras do conteúdo convencional. Segundo ela, a integração de diferentes áreas do conhecimento é fundamental para o fortalecimento das oportunidades de formação.
USP segue como principal referência acadêmica da região
A Universidade de São Paulo permaneceu durante toda a série histórica como a instituição mais bem colocada da América Latina. Em 2014, a universidade ocupava a 131ª posição mundial e já liderava o ranking regional.
Os melhores resultados foram registrados entre 2018 e 2023. Nesse período, a instituição conseguiu integrar o grupo das cem melhores universidades do planeta, algo raro para instituições localizadas em países em desenvolvimento.
O ponto mais alto da trajetória ocorreu entre 2018 e 2019, quando a USP alcançou a 77ª colocação global. O desempenho consolidou a universidade como uma das referências acadêmicas mais relevantes fora do eixo tradicional formado por Estados Unidos e Europa Ocidental.
Nos anos seguintes, porém, a instituição passou a registrar oscilações. Entre 2020 e 2024, permaneceu em posições de destaque, variando entre o 103º e o 117º lugar no ranking mundial.
As edições mais recentes indicam continuidade desse movimento. Em 2025, a universidade apareceu na 118ª posição. Em 2026, encerrou o levantamento na 119ª colocação.
Segundo os dados do CWUR, a queda está associada à redução de desempenho em critérios como qualidade da educação, empregabilidade dos formados, qualidade do corpo docente e produção científica.
Para o Dr. Nadim Mahassen, presidente da organização responsável pelo ranking, o cenário reflete “anos de financiamento inadequado e a desvalorização da ciência e da educação como bens públicos”.
Mesmo com a perda de posições nos últimos anos, a USP conclui o período analisado em situação melhor do que a registrada no início da série. Em comparação com 2014, a universidade avançou 12 colocações no ranking global.
Presença brasileira cresce entre as melhores universidades
Além da liderança da USP, o Brasil ampliou sua participação entre as instituições de maior reconhecimento internacional.
Em 2014, três das cinco melhores universidades latino-americanas eram brasileiras: USP, UFRJ e Unicamp. Doze anos depois, o país manteve a mesma representatividade no grupo de elite regional.
O crescimento também aparece no número total de instituições classificadas. Em 2014, cerca de 18 universidades brasileiras figuravam entre as mil melhores do mundo. Em 2026, o país passou a contabilizar 52 instituições entre as duas mil primeiras posições do ranking.
A lista inclui universidades e centros de pesquisa especializados, como a Fiocruz, o IMPA e o ITA, demonstrando maior diversidade da produção científica nacional.
Apesar disso, o domínio brasileiro passou a enfrentar concorrência crescente dentro da própria América Latina.
México reduz distância e aumenta competitividade
O principal avanço regional veio do México. A Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) apresentou uma das trajetórias mais consistentes do período analisado.
Em 2014, a instituição ocupava a 337ª posição mundial. Ao longo da década, acumulou ganhos sucessivos até alcançar o 287º lugar em 2026.
Com esse desempenho, a universidade mexicana consolidou-se como a segunda melhor da América Latina e diminuiu a distância em relação às principais representantes brasileiras.
A UFRJ terminou 2026 na 346ª colocação mundial, enquanto a Unicamp apareceu em 379º lugar.
A Argentina manteve presença constante no cenário regional por meio da Universidade de Buenos Aires (UBA). A instituição estava na 378ª posição global em 2014 e encerrou 2026 no 354º lugar, mantendo participação frequente na disputa pelas primeiras colocações latino-americanas.
O quadro regional mais recente, entretanto, traz sinais de alerta. Segundo os dados do CWUR, 87% das universidades brasileiras registraram queda de posição em 2026, movimento que também atingiu parte dos países vizinhos.
China avança enquanto topo mundial permanece estável
No cenário global, a liderança continua concentrada em poucas instituições. Durante todo o período analisado, a Universidade de Harvard manteve a primeira posição mundial, com pontuação máxima.
As dez primeiras colocações seguiram dominadas por universidades dos Estados Unidos e do Reino Unido, incluindo MIT, Stanford, Cambridge e Oxford.
Embora o grupo de elite tenha permanecido relativamente estável, ocorreram mudanças internas ao longo dos anos. Instituições como Princeton e Universidade da Pensilvânia ganharam espaço, enquanto outras perderam posições.
A transformação mais significativa, porém, ocorreu fora do Top 10. A China ampliou fortemente sua presença internacional e, em 2026, ultrapassou os Estados Unidos em número de universidades classificadas no ranking, com 360 instituições contra 313. Além disso, 98% das universidades chinesas avançaram em relação ao ano anterior.
O movimento reforça uma mudança gradual no equilíbrio global da educação superior. Países que ampliaram investimentos em pesquisa, inovação e desenvolvimento científico passaram a ganhar espaço, enquanto sistemas universitários tradicionais enfrentam maior pressão competitiva. Nesse contexto, o desafio brasileiro será preservar sua liderança regional e, ao mesmo tempo, recuperar terreno na disputa acadêmica internacional.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/hercules-hall-cercado-por-vegetacao-sob-a-luz-do-sol-durante-o-dia-em-munique-na-alemanha_10612838.htm








