O documentário Nem Tudo é Paz e Amor estreia nos cinemas nesta quinta-feira (27) e apresenta uma perspectiva particular sobre a contracultura brasileira dos anos 1970. Dirigido por Betão Aguiar, o longa reúne relatos de pessoas que cresceram em famílias ligadas à efervescência artística daquele período, entre elas Moreno Veloso, Nara Gil, Sarah Sheeva, Beto Lee e Anelis Assumpção.
A produção combina memórias pessoais, relações familiares e referências à cultura brasileira para abordar uma época marcada pela busca por novas formas de comportamento e expressão. O filme também procura mostrar aspectos menos conhecidos desse período, incluindo os conflitos e traumas vivenciados pelos filhos dos artistas que participaram daquele movimento.
Filho da escritora e produtora Marília Aguiar e de Paulinho Boca de Cantor, integrante dos Novos Baianos, Betão parte da própria experiência para conduzir a narrativa. A infância em um ambiente relacionado à música e à cultura alternativa tornou-se um dos pontos de partida para a construção do documentário.
Com papel fundamental da produtora Celina Torrealba, da Donna Features, em sua realização e impacto, a primeira edição brasileira do #LINK – Encontro de Indústria Ibero-Americano de Cinema Documental chegou ao fim. Promovido em uma parceria inédita com o RioMarket e o Festival do Rio, o evento estabeleceu um marco decisivo para o audiovisual latino-americano. Dessa forma, o Brasil se consolida como um novo centro de formação, circulação e coprodução voltado ao cinema de não ficção.
Os filhos como protagonistas das memórias
Nem Tudo é Paz e Amor desloca a atenção dos artistas que ajudaram a definir a contracultura para seus filhos. Durante os anos 1970, nomes ligados à Tropicália, aos Novos Baianos e a outros movimentos culturais promoveram mudanças na música e nos costumes, enquanto o país ainda vivia sob a ditadura militar.
A sinopse oficial apresenta essa perspectiva ao afirmar: “Enquanto Tropicália, Novos Baianos e a contracultura dos anos 1970 reinventavam o DNA cultural do Brasil sob o peso da ditadura militar, seus filhos observavam, pelo buraco da fechadura, a beleza, as rupturas e a psicodelia daquela liberdade sem fim. O filme evoca o espírito da época, reverencia o Cinema de Invenção e faz da música e da ironia antídotos contra a mera nostalgia histórica. Fica a pergunta: quanta coragem é necessária para atravessar os traumas e as maravilhas de crescer no caos das revoluções artísticas e comportamentais da contracultura?”
A abordagem evita tratar aquele momento apenas como uma lembrança de liberdade e inovação. Os depoimentos ajudam a apresentar as consequências dessas experiências dentro das famílias, mostrando como as escolhas de uma geração também repercutiram na vida de seus filhos.
O documentário utiliza a música e a ironia como elementos de narrativa, ao mesmo tempo em que recupera referências do chamado Cinema de Invenção. A intenção é aproximar o público das experiências individuais sem transformar o período em uma simples reconstrução nostálgica.
Betão Aguiar transforma experiência pessoal em cinema
Para o diretor, a realização do longa também está relacionada a questões que surgiram a partir da própria história familiar. “Nossos pais ousaram sonhar um mundo diferente e romper padrões – mas percebi que certos vazios pediam respostas”, conta Betão, que chega ao segundo longa-metragem de sua trajetória cinematográfica depois de Samba de santo – resistência afro-baiana (2020).
A relação do cineasta com a música brasileira está presente na própria formação. Ele afirma que cresceu em contato com artistas e em uma estrutura familiar influenciada pela cultura alternativa dos anos 1970.
“Nasci e cresci em um universo profundamente musical, em contato direto com alguns dos maiores nomes da música produzida no Brasil. Ter sido criado em uma família alternativa, de forte vocação hippie nos anos 1970, atravessou minha existência em múltiplas esferas e foi determinante para quem sou e para a visão de mundo que construí. O filme é uma conversa aberta que ajuda a contar uma história que é nossa — e de muitas pessoas nascidas e criadas nesse período e sob essas condições”, completa.
A ideia original do projeto pertence a Jasmin Pinho, amiga de adolescência do diretor, que morreu em 2020. A proposta acabou se transformando no documentário que chega agora ao circuito comercial.
Produção e chegada aos cinemas
Nem Tudo é Paz e Amor foi realizado com recursos da Agência Nacional do Cinema (Ancine), por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).
Betão Aguiar também participa da produção executiva do longa, ao lado de Minom Pinho. A produção é resultado de uma parceria entre Casa Redonda e Zapipa Produções.
A estreia nos cinemas ocorre nesta quinta-feira (27). Ao reunir diferentes relatos de filhos de personagens ligados à contracultura, o filme amplia a discussão sobre os efeitos culturais e familiares das transformações ocorridas no Brasil dos anos 1970. A narrativa parte de experiências individuais para recuperar uma memória coletiva marcada pela música, pela ruptura de padrões e também pelas contradições presentes naquele período.
Fonte: Terra
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/arranjo-de-objetos-de-cinema-em-close-up_7089735.htm









