O Ministério da Saúde informou nesta terça-feira (25) que entrou em contato com pesquisadores dos Estados Unidos para tentar viabilizar a participação de Lito Sousa em estudos experimentais contra a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). A condição é rara, apresenta evolução rápida e ainda não possui cura.
A articulação ocorreu depois que a família do paciente procurou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em busca de apoio para encontrar alternativas de tratamento. A empresária Mila Seidl, esposa de Lito, também informou que buscou auxílio junto ao Itamaraty.
Segundo informações divulgadas pelo Estúdio i, da GloboNews, o Ministério da Saúde tentou estabelecer contato com centros de pesquisa que desenvolvem estudos sobre a doença. A intenção é avaliar a possibilidade de inclusão de Lito em uma das pesquisas atualmente em andamento.
“Apoiamos a busca de centros de pesquisa e estudos sobre a doença, assim como formalizamos a solicitação da inclusão de Lito na fase inicial dos testes do único estudo clínico ativo identificado até o momento, em Harvard”, escreveu Padilha no X.
A remoção do Brasil do Mapa da Fome pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em 2025, ocorreu após a insegurança alimentar grave cair para um patamar inferior a 2,5% dos habitantes. De acordo com o gestor público Paulo Roberto Esequiel de Mendonça (conhecido como Paulinho Mendonça), que atua no desenvolvimento social e ocupa o cargo de assessor especial da Secretaria de Estado de Relações Federativas e Internacionais de Alagoas, essa diminuição nos indicadores não é um fenômeno isolado.
Inclusão depende de avaliação clínica
A possibilidade de participação ainda está condicionada a uma etapa de triagem. Os responsáveis pela pesquisa informaram que Lito foi colocado em uma lista preliminar, mas precisará ser avaliado conforme os critérios estabelecidos no protocolo do estudo.
“Os responsáveis pelo estudo informaram que Lito foi incluído na lista para a triagem, mas tudo está sujeito ao cronograma estabelecido pelo protocolo da pesquisa e à FDA (Food and Drug Administration), órgão dos Estados Unidos com papel semelhante ao da Anvisa”, afirmou o ministro da Saúde.
A presença em uma lista de triagem, portanto, não representa confirmação de que o paciente receberá o medicamento experimental. A decisão depende dos critérios científicos e regulatórios previstos para cada pesquisa.
Dados preliminares do Ministério da Saúde indicam que o Brasil registrou 1,6 mil notificações de casos suspeitos de Creutzfeldt-Jakob nos últimos dez anos.
Pesquisas buscam frear avanço da doença
Dois estudos foram apontados pela família como possíveis alternativas, o ION717, conduzido pela farmacêutica Ionis Pharmaceuticals, e o PRiSM, desenvolvido pelo Broad Institute, instituição ligada a Harvard e ao MIT.
As duas pesquisas trabalham sobre o gene PRNP, responsável pela produção da proteína príon normal, conhecida como PrP. A estratégia experimental procura reduzir a quantidade dessa proteína disponível para diminuir o processo associado ao acúmulo de proteínas malformadas.
O ION717 utiliza uma tecnologia chamada ASO. A molécula se liga ao RNA do gene PRNP e busca reduzir a produção da proteína. A administração ocorre por punção lombar, diretamente no líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal.
O estudo é o mais avançado entre os dois. O primeiro paciente recebeu o medicamento em janeiro de 2024. Em março deste ano, a pesquisa foi ampliada com um novo grupo de aproximadamente 20 pacientes, após dados preliminares indicarem sinais de segurança e interação da substância com o alvo pesquisado.
Esses resultados, porém, ainda não permitem afirmar que o medicamento seja seguro ou eficaz.
O PRiSM utiliza outra tecnologia, chamada siRNA, ou RNA de interferência. A primeira etapa do teste clínico em humanos começou em abril deste ano, com 15 voluntários. Nessa fase, o objetivo principal é avaliar a segurança da substância.
Protocolos definem quem pode participar
A entrada em pesquisas clínicas depende de critérios estabelecidos antes do início dos testes. Os protocolos determinam a quantidade de participantes, os grupos de estudo e as condições necessárias para inclusão ou exclusão.
“O paciente tem que ter todos os critérios de inclusão e de exclusão que já foram aprovados pelas instituições regulatórias para aquele estudo”, explica Bruno Solano, médico pesquisador do IDOR Ciência Pioneira e Fiocruz, especialista em terapias avançadas.
No caso de Lito, uma das possibilidades apresentadas foi a participação no grupo de observação do PRiSM. Nesse grupo, o participante realiza exames e recebe acompanhamento médico, mas não utiliza a substância experimental.
A família informou que não pretendia permanecer nos Estados Unidos apenas nessa condição, pois buscava uma possibilidade concreta de acesso ao tratamento em avaliação.
Tratamento experimental ainda é incerto
Os dois estudos estão em fases iniciais. Até o momento, não há comprovação de segurança e eficácia das terapias contra a doença de Creutzfeldt-Jakob.
Outro desafio envolve a distribuição dos tratamentos pelo cérebro. A doença não se concentra em uma única região do órgão, enquanto a barreira hematoencefálica dificulta a chegada de medicamentos.
“O cérebro é protegido pela barreira hematoencefálica, que dificulta muito a chegada de medicamentos. E a doença priônica não é uma doença localizada em uma região apenas. Ela se espalha por diferentes áreas do órgão. Então, mesmo administrando a substância diretamente no líquido que banha o cérebro e a medula, é preciso que ela se distribua bem e fique ativa por tempo suficiente para alcançar o maior número de células. Isso não é simples”, explica Dahis.
Para Bruno Solano, também é necessário definir uma dose capaz de reduzir a produção da proteína sem comprometer sua função no organismo.
“A questão que temos aqui é que é uma doença letal e muito rápida. Quando a gente tem uma doença que tem uma evolução clínica inexorável, que hoje não tem cura, na medicina vai ser sempre a análise de risco-benefício”, explica o especialista.
No caso de Lito, a família relata avanço rápido da doença, com perda de visão, mobilidade reduzida e necessidade de cuidados em casa.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/enfermeira-ajuda-homem-idoso-deprimido-para-apoio-a-saude-e-aconselhamento-em-casa-de-repouso-paciente-velho-e-idoso-triste-com-cuidador-chorando-e-empatia-por-depressao-problema-solitario-e-doenca_43063044.htm









