A incorporação de tecnologias digitais à saúde pública oferece alternativas para ampliar o acesso a especialistas, especialmente em municípios distantes dos grandes centros urbanos. A experiência de Parintins, no Amazonas, mostra, porém, que a telemedicina também exige coordenação entre instituições, organização das equipes e atenção às diferenças territoriais. Esses aspectos são investigados em uma pesquisa de doutorado da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), que analisa os efeitos do atendimento médico a distância no Sistema Único de Saúde (SUS).
O estudo é conduzido por Rodrigo Meirelles, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da instituição. A pesquisa acompanha um serviço público de telemedicina em funcionamento em Parintins há cerca de 20 anos, considerado um dos primeiros do país, para compreender como a modalidade modifica as relações de trabalho, a organização da assistência e a dinâmica entre instituições.
Localizado na Ilha Tupinambarana, a aproximadamente 369 quilômetros de Manaus, o município enfrenta desafios geográficos que ajudam a dimensionar a importância dos serviços remotos. A conexão entre unidades urbanas, comunidades ribeirinhas e especialistas de outras cidades permite ampliar as possibilidades de atendimento, sem exigir que todos os pacientes se desloquem para receber avaliações especializadas.
“A partir da sociologia da saúde, busco compreender as relações sociais, institucionais e de trabalho que tornam possível o cuidado médico a distância em uma das áreas mais remotas do Brasil, bem como seus efeitos sobre as desigualdades e a produção de riscos em saúde”, conta Meirelles.
O debate sobre a saúde mental corporativa ganha cada vez mais relevância diante do aumento nos índices de estresse profissional e da incidência do burnout. Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na CID-11 como um fenômeno estritamente ocupacional, a síndrome causa exaustão crônica, perda de produtividade e constantes afastamentos do trabalho. Pesquisas apontam que a maioria dos trabalhadores brasileiros convive com sintomas contínuos de estresse, incluindo fadiga, ansiedade e déficit de atenção. Segundo o médico e gestor de saúde Hans Dohmann, essa conjuntura exige uma reestruturação profunda nas diretrizes de cuidado adotadas pelas empresas.
Gestão pública precisa considerar os limites da tecnologia
A telemedicina ganhou força no Brasil durante a pandemia de covid-19, quando os atendimentos a distância se expandiram e a regulamentação da modalidade avançou. Desde então, a tecnologia passou a integrar as alternativas para facilitar consultas, avaliações e procedimentos especializados no sistema público.
Para os gestores municipais, a implantação desses serviços envolve questões que vão além da aquisição de equipamentos. A disponibilidade de profissionais, a capacidade de conectar unidades de saúde e a articulação com instituições que oferecem atendimento especializado influenciam o funcionamento da rede.
A pesquisa aponta que a telemedicina pode facilitar o acesso a determinadas condutas diagnósticas e terapêuticas sem modificar a distribuição territorial dos médicos. A concentração de especialistas nos grandes centros continua sendo um fator relevante para municípios que dependem de profissionais localizados em outras regiões.
Em Parintins, o serviço mantém relações com faculdades de medicina de Manaus e hospitais privados-filantrópicos de São Paulo. Essa estrutura permite conectar pacientes a especialistas, mas também evidencia a dependência de instituições externas para a prestação de parte dos atendimentos.
“O sistema de saúde de Parintins passa a depender de instituições localizadas fora do município e do Estado do Amazonas”, afirma o pesquisador.
O caso demonstra que a transformação digital dos serviços públicos precisa ser analisada considerando a estrutura necessária para manter o atendimento. A existência de ferramentas tecnológicas não garante, isoladamente, que as desigualdades de acesso sejam superadas.
Profissionais locais conectam pacientes e especialistas
Outro ponto observado no estudo é a participação dos trabalhadores que atuam diretamente no território. Em Parintins, profissionais locais e o coordenador do Centro de Telemedicina e Telessaúde fazem a ligação entre pacientes das áreas urbanas e rurais, equipes de Saúde da Família e especialistas de outras cidades.
Essa mediação é importante também por causa das diferenças culturais e linguísticas. Meirelles relata uma teleinterconsulta na qual um profissional local precisou explicar a um especialista de São Paulo o significado da expressão “esquentamento na mãe do corpo”, utilizada em algumas regiões do Norte e Nordeste para se referir ao útero.
Na situação descrita, o relato poderia indicar uma sensação de queimação ou cólica intensa na região pélvica ou abdominal. A compreensão da queixa dependia do conhecimento sobre a linguagem utilizada pelo paciente e do contexto em que o sintoma foi apresentado.
O exemplo mostra que a qualidade do atendimento remoto não depende apenas da conexão entre profissionais. O conhecimento da realidade local também contribui para a comunicação clínica e para a organização do cuidado.
Para a administração pública, essa dimensão evidencia a importância de considerar as condições de trabalho das equipes que sustentam os serviços digitais. A tecnologia pode ampliar o alcance da assistência, mas sua utilização exige profissionais capazes de articular diferentes etapas do atendimento.
Rede de telessaúde amplia a estrutura do SUS
Dados do Ministério da Saúde citados na pesquisa indicam que o SUS conta com 29 Núcleos de Telessaúde em funcionamento nos estados e outros 34 em implantação. A previsão é ultrapassar 60 núcleos, com cobertura nas 27 unidades da Federação.
Entre janeiro de 2025 e junho de 2026, foram registrados mais de 10 mil procedimentos de telessaúde no sistema público, segundo os dados ministeriais mencionados no estudo.
O Novo PAC Saúde prevê a implantação de Pontos de Telessaúde nas Unidades Básicas de Saúde, com o fornecimento de 7 mil kits de equipamentos para teleconsultas até o final de 2026. A iniciativa busca ampliar a infraestrutura disponível para o atendimento digital na rede pública.
Em Parintins, a estrutura reúne 22 pontos de telessaúde. Nove estão em unidades de saúde ribeirinhas, incluindo a unidade fluvial, seis funcionam em unidades urbanas da Atenção Primária à Saúde e sete atendem serviços especializados.
A rede permite acesso remoto a especialidades como cardiologia, pediatria, neurologia, endocrinologia, ginecologia, psiquiatria, oftalmologia e ortopedia, além de telediagnósticos. A diversidade de serviços ilustra como a telessaúde pode integrar diferentes níveis de atendimento.
Pesquisa contribui para o debate sobre políticas públicas
O trabalho é orientado pela professora Aurea Maria Zöllner Ianni, do Departamento de Política, Gestão e Saúde da FSP, e integra um projeto mais amplo sobre saúde contemporânea e relações sociais de definição e decisão de risco.
“Acredito que o pioneirismo do estudo, consideradas as características apresentadas, trará contribuições importantes não apenas para a saúde, mas para uma compreensão ampliada da nossa condição digital”, afirma a docente.
A pesquisa está na fase final e recebe financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do processo nº 2025/16542-4.
Ao investigar a experiência de Parintins, o estudo oferece elementos para a discussão sobre o planejamento da saúde pública em diferentes realidades municipais. A expansão da telemedicina depende da infraestrutura tecnológica, mas também da cooperação entre instituições, da capacidade de organização das equipes e do reconhecimento das necessidades de cada território. Esses fatores ajudam a compreender os limites e as possibilidades da inovação na prestação de serviços públicos.
Fonte: Jornal da USP
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/retrato-de-um-medico-em-uma-videochamada-para-uma-consulta-virtual-com-um-paciente-novo-estilo-de-vida-normal-conceito-de-cuidados-de-saude-e-medicina_15763552.htm





