Os transtornos mentais estão entre os fatores que mais pressionam a economia global atualmente. Um estudo desenvolvido pela Sodexo em parceria com a Social Impact Partners e a Global Brain Health Initiative estima que problemas relacionados à saúde mental e aos distúrbios cerebrais já geram um impacto anual de aproximadamente US$ 5 trilhões. A projeção é ainda mais preocupante para os próximos anos: sem intervenções eficazes, o custo pode superar US$ 16 trilhões até 2030.
As conclusões fazem parte do relatório Creating Workplace Environments that Support Brain Health (“Criando ambientes de trabalho que apoiam a saúde cerebral”), que reúne evidências científicas sobre a relação entre saúde mental, desempenho cognitivo e produtividade.
O estudo mostra que os efeitos econômicos não estão restritos aos sistemas de saúde. Eles também atingem diretamente empresas, governos e trabalhadores. Entre os fatores mais relevantes aparecem a depressão e a ansiedade, responsáveis por perdas estimadas em US$ 1 trilhão por ano devido à redução da produtividade.
Além disso, essas condições estão associadas à perda de cerca de 12 bilhões de dias de trabalho anualmente em todo o planeta, evidenciando o impacto crescente do adoecimento mental nas atividades econômicas.
Outro indicador analisado pela pesquisa é o engajamento dos profissionais. Segundo os dados reunidos pelos pesquisadores, trabalhadores desengajados geram prejuízos de aproximadamente US$ 8,8 trilhões por ano, valor equivalente a 9% do Produto Interno Bruto global.
Na visão do economista Paulo Narcélio Simões Amaral, o panorama atual evidencia uma transformação significativa na postura das corporações. Segundo o especialista, os processos de reestruturação evoluíram de medidas emergenciais contra crises financeiras para se tornarem componentes estratégicos da administração.
Ambiente de trabalho ganha relevância
A publicação aponta que as empresas têm papel importante na construção de soluções para enfrentar esse cenário. Isso porque o ambiente corporativo exerce influência direta sobre diversos aspectos da saúde física e emocional dos profissionais.
Os autores lembram que uma pessoa passa, em média, cerca de 90 mil horas da vida trabalhando. Diante desse contexto, fatores como organização das atividades, relações interpessoais, qualidade da liderança e oportunidades de descanso tornam-se determinantes para o bem-estar.
“A forma como o trabalho é organizado, como as lideranças se relacionam e como as pessoas descansam e convivem influenciam diretamente na saúde mental. O cuidado precisa estar incorporado ao dia a dia”, afirma Ana Menegotto, vice-presidente de pessoas, comunicação e ESG da Sodexo Brasil.
A avaliação apresentada no estudo é que a segurança psicológica não deve ser vista como uma ação isolada ou uma campanha temporária. Para gerar resultados consistentes, ela precisa fazer parte da cultura organizacional e da rotina dos colaboradores.
Atualização da NR-1 amplia atenção ao tema
No Brasil, a discussão ganhou força com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor em maio. A mudança ampliou a responsabilidade das empresas na identificação e no gerenciamento de riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
A nova regulamentação reforça a necessidade de observar fatores que possam comprometer a saúde mental dos trabalhadores, incorporando o tema de forma mais ampla às estratégias de segurança e saúde ocupacional.
O avanço da legislação acompanha uma tendência observada em diferentes países, onde questões como estresse ocupacional, exaustão emocional e sofrimento psicológico passaram a ser tratadas como riscos que exigem prevenção e monitoramento.
Saúde cerebral depende de múltiplos fatores
O relatório propõe uma abordagem integrada para promover a saúde mental. Em vez de concentrar esforços apenas no tratamento de doenças, os pesquisadores defendem a adoção de medidas que fortaleçam a saúde cerebral ao longo do tempo.
Entre os fatores apontados como essenciais estão alimentação adequada, sono de qualidade, prática regular de exercícios físicos, conexões sociais, gestão do estresse, propósito de vida, estímulos cognitivos e acompanhamento preventivo.
O ambiente físico também aparece como elemento relevante. Segundo o estudo, espaços com iluminação natural, boa ventilação, menor nível de ruído e áreas destinadas à convivência e ao descanso podem contribuir para melhores resultados cognitivos e emocionais.
Uma das pesquisas analisadas mostrou que profissionais que trabalham em edifícios com ar mais limpo e ventilação adequada alcançaram desempenho até 61% superior em testes cognitivos.
As relações sociais são outro aspecto destacado. Os dados reunidos indicam que a solidão está associada ao aumento dos casos de ansiedade, depressão e esgotamento mental. O isolamento também pode elevar em 31% o risco de demência.
Ganhos econômicos podem chegar a US$ 6,2 trilhões
Além de reduzir impactos sobre a saúde dos trabalhadores, o investimento em ações preventivas pode gerar benefícios econômicos expressivos. De acordo com o relatório, iniciativas voltadas à saúde cerebral têm potencial para adicionar US$ 6,2 trilhões ao PIB global até 2050.
Os pesquisadores apontam que programas focados em bem-estar e prevenção podem contribuir para diminuir afastamentos, elevar o engajamento e melhorar a produtividade das equipes.
Diante da expansão dos transtornos mentais em diferentes regiões do mundo, o estudo conclui que o tema deve ser tratado como uma prioridade estratégica. Mais do que uma questão de responsabilidade social, a saúde mental passa a ser considerada um elemento essencial para a sustentabilidade e a competitividade das organizações nas próximas décadas.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/imagem-ia-premium/employee-in-a-nicely-decorated-office-with-their-eyes-closed-and-a-serene-demeanor-while-individuals-are-blurred-behind-them-in-a-flurry_420967182.htm









