Médico e gestor em saúde destaca como ferramentas digitais ampliam acesso, prevenção e acompanhamento contínuo da saúde de colaboradores.
O aumento dos níveis de estresse no trabalho e o crescimento dos casos de burnout têm ampliado o debate sobre saúde mental no ambiente corporativo. A síndrome, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como fenômeno ocupacional na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), está associada à exaustão crônica, queda de produtividade e afastamentos recorrentes do trabalho.
No Brasil, estudos indicam que a maioria dos trabalhadores relata sintomas persistentes de estresse, como fadiga, ansiedade e dificuldade de concentração. Para Hans Dohmann, médico e gestor em saúde, o cenário exige uma mudança na forma como as empresas lidam com o cuidado aos colaboradores.“O modelo reativo, baseado apenas no atendimento pontual, não responde mais à complexidade dos problemas de saúde mental no trabalho. É necessário estruturar acompanhamento contínuo e preventivo”, afirma.
Plataformas digitais ganham espaço
Com a ampliação do uso de tecnologias em saúde, empresas passaram a adotar plataformas digitais voltadas ao cuidado corporativo. Essas soluções reúnem serviços como telemedicina, telepsicologia, monitoramento remoto de indicadores de saúde e programas de prevenção, integrados a sistemas de gestão de pessoas.
De acordo com Dohmann, essas ferramentas ampliam o acesso ao cuidado, especialmente em organizações com grande número de colaboradores ou atuação em diferentes regiões. “As plataformas digitais permitem que o trabalhador tenha acesso mais rápido a profissionais de saúde, o que facilita tanto o diagnóstico precoce quanto o acompanhamento ao longo do tempo”.
Prevenção e acompanhamento contínuo
Estudos científicos apontam que intervenções digitais podem contribuir para a redução do estresse ocupacional. Revisões sistemáticas, por sua vez, indicam que programas baseados em ferramentas digitais, como aplicativos e atendimentos remotos, apresentaram resultados positivos na diminuição de sintomas de estresse e ansiedade, com efeitos mantidos ao longo do tempo.
Para Dohmann, o diferencial dessas plataformas está na possibilidade de acompanhar o colaborador de forma longitudinal. “Quando a empresa consegue monitorar indicadores de saúde e oferecer suporte contínuo, há mais chances de identificar sinais de esgotamento antes que o quadro evolua para burnout”.
Além disso, o uso de dados consolidados pode apoiar decisões estratégicas em saúde corporativa, permitindo a adaptação de programas de bem-estar às necessidades reais da população atendida.
Segundo análises setoriais, o crescimento da telemedicina no Brasil tem sido impulsionado não apenas pelo sistema público, mas também pela expansão da saúde digital na rede privada e no ambiente corporativo, com integração de dados e uso crescente de inteligência artificial para apoio clínico.
Impactos para empresas e trabalhadores
O aumento de afastamentos, rotatividade e custos assistenciais são apenas alguns dos reflexos diretos do burnout sobre o desempenho organizacional. Nesse contexto, plataformas digitais de saúde são vistas como uma alternativa para integrar cuidado médico, saúde mental e ações preventivas.
Na avaliação de Dohmann, a adoção dessas ferramentas não substitui o atendimento presencial, mas amplia sua eficácia. “A tecnologia funciona como um complemento ao cuidado tradicional, ajudando a organizar fluxos, reduzir barreiras de acesso e fortalecer a relação entre colaborador e sistema de saúde”.
Desafios para a consolidação do modelo
Apesar da expansão das plataformas digitais de saúde, especialistas apontam desafios para sua consolidação no ambiente corporativo, como a necessidade de infraestrutura tecnológica adequada, capacitação dos usuários e atenção às normas de privacidade e proteção de dados.
O sucesso dessas iniciativas depende da integração com políticas internas de saúde e segurança do trabalho. “A tecnologia, por si só, não resolve o problema. É fundamental que as empresas tenham uma estratégia clara de cuidado, com foco em prevenção, acompanhamento e uso responsável das informações de saúde”, conclui Hans Dohmann.
Sobre Hans Dohmann

Hans Dohmann é médico, mestre em Cardiologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Desenvolveu pesquisa em células-tronco em parceria com o Texas Heart Institute. Foi secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro entre 2009 e 2014. Atua nas áreas de gestão populacional, saúde digital e modelos assistenciais no setor privado. Atualmente, é diretor médico da Stone, onde responde pelo Hospital Virtual Verde.
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