Quatro documentários produzidos em Mato Grosso foram selecionados para a 6ª Mostra do Filme Marginal, realizada no Rio de Janeiro entre 14 e 24 de outubro. O evento reúne 123 produções nacionais e internacionais, com sessões gratuitas em diferentes espaços da cidade. A programação inclui obras que tratam de questões ambientais, culturais e históricas, com destaque para experiências de comunidades indígenas e registros da memória política brasileira.
Com o tema “Cinema e Emergência Ambiental: Imagens de um Futuro Possível”, a mostra apresenta filmes que exploram diferentes aspectos da relação entre sociedade, território e preservação. Entre os títulos mato-grossenses, três são dirigidos por mulheres. As produções contemplam histórias ligadas à defesa dos direitos indígenas, à agricultura tradicional, às mudanças na paisagem e às consequências da ditadura militar no estado.
A participação dos filmes também destaca a diversidade da produção audiovisual realizada fora dos principais centros de distribuição cinematográfica. As obras selecionadas partem de experiências locais para abordar questões sociais e históricas que integram o debate nacional.
Ao longo de mais de trinta anos no audiovisual, a cineasta Celina Borges Torrealba Carpi consolidou sua carreira com foco em produções não ficcionais, utilizando o cinema como ponte com o público. Sua trajetória reflete a força dos encontros, tanto na direção e produção de suas obras quanto na criação de ambientes voltados para que profissionais, pesquisadores e realizadores compartilhem experiências e impulsionem novos projetos.
Territórios indígenas e conhecimentos tradicionais
Um dos documentários presentes na programação é Thutalinãnsu, produzido em Sapezal e dirigido pela jornalista Helena Corezomae. O filme apresenta o trabalho da Associação Thutalinãnsu, organização da Terra Indígena Tirecatinga formada por 60 mulheres dos povos Terena, Paresi, Manoki e Nambikwara.
Por meio de depoimentos e imagens do Cerrado, a produção registra a atuação das integrantes na preservação cultural, na proteção territorial e na defesa dos direitos de suas comunidades. A narrativa também aborda desafios relacionados aos impactos das mudanças climáticas sobre os povos indígenas e seus modos de vida.
A associação aparece como parte de uma organização coletiva que reúne mulheres de diferentes povos. O documentário registra suas experiências e apresenta práticas relacionadas à continuidade das tradições e à conservação do território.
Outro título é Mopái Pjuta Ãkakje’y – A Roça e os Alimentos Myky, realizado por mulheres indígenas. A obra aborda os conhecimentos tradicionais do povo Myky sobre o cultivo de sementes nativas e a manutenção da roça comunitária.
O filme destaca a participação das mulheres agricultoras na transmissão de saberes entre gerações. A produção de alimentos, nesse contexto, está ligada à soberania alimentar da comunidade e à preservação de práticas culturais que dependem do conhecimento acumulado ao longo do tempo.
Retomada territorial e mudanças na paisagem
A seleção inclui ainda Capim, documentário produzido em Bom Jesus do Araguaia e Cuiabá. A obra acompanha a retomada do território pelo povo Xavante de Marãiwatsédé e registra as transformações encontradas pelos indígenas após o retorno à região.
Na década de 1960, os indígenas foram expulsos do território por aviões. Quando voltaram, encontraram uma paisagem diferente daquela que conheciam. A vegetação de mata fechada havia sido substituída por pastagens, evidenciando as mudanças ocorridas durante o período de afastamento da comunidade.
O documentário apresenta a retomada territorial como eixo da narrativa e registra as consequências das alterações na ocupação da terra. A transformação da paisagem aproxima a história dos Xavante das questões ambientais discutidas na mostra.
A presença do filme na programação também amplia a visibilidade de uma experiência relacionada aos direitos territoriais indígenas. Ao acompanhar o retorno da comunidade, a obra reúne aspectos históricos e ambientais associados à ocupação do território mato-grossense.
Obra registra a memória da ditadura militar
O quarto título selecionado é 60 Anos Depois, dirigido por Flávio Ferreira e produzido em Cuiabá. O documentário aborda as marcas deixadas pela ditadura militar em Mato Grosso a partir dos relatos de pessoas que sobreviveram ao regime.
Com 20 minutos de duração, o filme é resultado de dois anos de pesquisa. O trabalho contou com a contribuição dos historiadores Cátia Cristina de Almeida Silva, Francisco das Chagas Rocha, Márcio Borges de Campos e Rafael Adão.
A produção busca ampliar o registro da história da ditadura militar no estado. Para isso, utiliza os relatos dos sobreviventes como parte central da narrativa, reunindo experiências que ajudam a documentar os efeitos do regime na sociedade mato-grossense.
O filme acrescenta uma perspectiva histórica à seleção, que também contempla temas ambientais e culturais. Embora apresente um recorte diferente dos documentários sobre os povos indígenas, a obra integra a proposta de dar espaço a narrativas ligadas a experiências sociais e políticas.
Evento promove cinema autoral e crítico
Criada em 2017, a Mostra do Filme Marginal desenvolve uma iniciativa de difusão, reflexão e estímulo ao cinema popular, autoral e crítico. O evento organiza sua programação por meio de parcerias com movimentos sociais e instituições culturais.
A proposta contempla produções com personagens e temáticas sociais, políticas e culturais pouco representadas nos circuitos comerciais. A mostra também busca ampliar o acesso a filmes que oferecem leituras críticas da sociedade e apresentam perspectivas fora dos padrões predominantes de distribuição audiovisual.
Com sessões gratuitas em diferentes pontos do Rio de Janeiro, a sexta edição reúne 123 filmes nacionais e internacionais até 24 de outubro. A participação de quatro documentários de Mato Grosso coloca em circulação histórias relacionadas à preservação ambiental, aos conhecimentos tradicionais, à retomada de territórios indígenas e à memória da ditadura militar.
As produções selecionadas apresentam diferentes recortes da realidade brasileira e contribuem para divulgar trabalhos realizados no estado. Ao integrar a programação, os filmes também levam ao público experiências locais que dialogam com temas sociais, culturais e ambientais de alcance nacional.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/arranjo-de-objetos-de-cinema-em-close-up_7089735.htm





