O Brasil encerrou 2024 com a carga tributária bruta do Governo Geral equivalente a 32,32% do Produto Interno Bruto, segundo dados do Tesouro Nacional. O índice representa um crescimento relevante em relação ao ano anterior e reflete a ampliação da arrecadação de tributos federais, estaduais e municipais em um contexto de reorganização fiscal e busca por equilíbrio das contas públicas. Embora o dado seja macroeconômico, seus efeitos se manifestam de forma concreta no cotidiano das empresas, especialmente no setor de serviços.
Pressão fiscal no dia a dia das empresas
Renan Lemos Villela, advogado e especialista em direito tributário, afirma que o aumento da carga tributária tem sido percebido de forma imediata pelos prestadores de serviços. Segundo ele, a elevação de impostos, combinada com a complexidade do sistema tributário brasileiro, afeta diretamente o fluxo de caixa e a capacidade de planejamento das empresas. “Na prática, o empresário passa a lidar com mais custos fixos e menos previsibilidade, o que dificulta decisões de investimento e expansão”, observa.
Tributos sobre serviços e custo operacional
Entre os principais pontos de pressão está a incidência do Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza, o ISS, cuja cobrança é de competência municipal e incide diretamente sobre o valor do serviço prestado. Para empresas que atuam com margens reduzidas, esse custo se soma a outros tributos indiretos que incidem sobre insumos, energia, aluguel, tecnologia e contratação de terceiros. O efeito combinado pode elevar a carga tributária efetiva para além das alíquotas aparentes, tornando o serviço mais caro ou reduzindo a rentabilidade do prestador.
Cumulatividade e complexidade do sistema
Dados do Boletim de Estimativa da Carga Tributária do Tesouro indicam que tributos sobre bens e serviços estiveram entre os principais responsáveis pelo crescimento da arrecadação em 2024. No modelo atual, impostos como PIS e Cofins ainda apresentam características de cumulatividade em diversos setores, o que gera tributação em cascata ao longo da cadeia econômica. Villela ressalta que essa estrutura dificulta o controle dos custos reais. “Muitas empresas só percebem o peso tributário quando fecham o balanço e identificam a redução da margem”, afirma.
Reforma tributária e período de transição
Outro fator de atenção para os prestadores de serviços é a transição para o novo modelo tributário previsto na reforma em andamento. A substituição gradual de tributos como ISS, ICMS, PIS e Cofins pelo IBS e pela CBS promete simplificação, mas, no curto e médio prazo, exige adaptação. O especialista destaca que a mudança demanda revisão de contratos, sistemas de faturamento e estratégias de precificação. “A transição não é automática e pode gerar custos adicionais de conformidade, principalmente para empresas de menor porte”, avalia.
Planejamento como ferramenta de mitigação
Villela aponta que o planejamento tributário deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade operacional. Ele afirma que a escolha adequada do regime de tributação, a revisão periódica de enquadramentos fiscais e o acompanhamento das mudanças legislativas podem reduzir riscos e evitar pagamentos indevidos. Ainda assim, reconhece que nem sempre é possível neutralizar os efeitos do aumento da carga tributária, sobretudo em setores intensivos em mão de obra e com baixa elasticidade de preços.
Um impacto que vai além dos números
O avanço da carga tributária registrado em 2024 é um dado objetivo, mas seus reflexos no setor de serviços envolvem decisões práticas, ajustes operacionais e impacto direto na sustentabilidade dos negócios. Para prestadores de serviços, o desafio não está apenas em pagar mais impostos, mas em manter a atividade viável em um ambiente fiscal que continua exigindo atenção constante e capacidade de adaptação.
Sobre Renan Lemos Villela

Renan Lemos Villela é advogado e empresário do setor de consultoria tributária e advocacia empresarial. Fundador do Grupo Villela, atua na liderança da Villela Brasil Bank, especializada em soluções fiscais e tributárias para empresas de diferentes setores. Com experiência em gestão e estruturação fiscal, coordena projetos voltados ao planejamento tributário e ao desenvolvimento de modelos de conformidade para organizações em todo o país.









