A cadeia do chocolate chega à Páscoa de 2026 sob pressão. Depois de meses de forte instabilidade no mercado global de cacau, a indústria brasileira ainda tenta se ajustar a custos elevados e a um ambiente de demanda enfraquecida. No varejo, o efeito já é visível, com aumentos que chegam a 36% no preço dos ovos.
Informações da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) indicam que a alta recente da matéria-prima reduziu o ritmo de compras no mercado internacional. Nos últimos meses, houve melhora na oferta e alguma acomodação das cotações, mas o consumo não reagiu na mesma intensidade.
Esse desalinhamento cria um cenário delicado. Mesmo com preços menos pressionados do que no pico recente, a indústria ainda lida com custos acumulados e dificuldade para recompor margens. O impacto, inevitavelmente, chega ao consumidor final.
Nova regra de importação amplia incerteza
Ao mesmo tempo, mudanças nas regras de importação de cacau, definidas por medida provisória do governo federal, acrescentaram um novo fator de risco para o setor.
A AIPC afirma que a indústria nacional depende parcialmente da amêndoa importada para manter o funcionamento regular das fábricas e cumprir contratos no exterior. Com a restrição, esse equilíbrio fica comprometido.
Segundo a presidente-executiva da entidade, Anna Paula Losi, a alteração tem efeitos diretos sobre a operação das empresas.
“A restrição eleva os custos financeiros, aumenta o risco contratual e inviabiliza as exportações”, afirma.
A limitação no acesso à matéria-prima tende a aumentar a ociosidade das indústrias, muitas das quais já operam abaixo da capacidade instalada. Com menor volume produzido, os custos fixos ganham mais peso, pressionando o preço final dos produtos.
Produção menor, custos maiores
O encarecimento não ocorre apenas pelo preço do cacau. A redução da atividade industrial altera toda a lógica de custos. Gastos com estrutura, logística e pessoal permanecem, mas são diluídos em uma produção menor.
Esse desequilíbrio eleva o custo unitário e reduz a competitividade, tanto no mercado interno quanto nas exportações. O repasse ao consumidor se torna uma saída recorrente, sobretudo em períodos de maior demanda, como a Páscoa.
A AIPC avalia que o cenário pode resultar em queda adicional do consumo, criando um ciclo de retração que afeta diferentes elos da cadeia.
Reflexos chegam ao produtor
A desaceleração da indústria também tem impacto direto no campo. Com menor moagem de cacau, a demanda por amêndoas tende a cair, o que pode atingir produtores brasileiros.
Mesmo em um contexto de preços internacionais elevados, a retração da atividade industrial no país reduz o volume negociado internamente. Para o produtor, isso significa menos oportunidades de venda e maior incerteza.
Além disso, a diminuição do ritmo nas fábricas pode afetar o emprego e os investimentos no setor, ampliando o alcance da desaceleração.
Qualidade segue preservada
Apesar da percepção de piora por parte de alguns consumidores, a qualidade do chocolate não aparece como o principal problema neste momento.
A AIPC destaca que o cacau importado tem função complementar na cadeia e não substitui a produção nacional. A preocupação maior está nos efeitos econômicos das mudanças recentes.
“O maior risco não é a qualidade do chocolate, mas os impactos estruturais que afetam toda a cadeia produtiva”, explica Anna Paula Losi.
A tendência, portanto, é de manutenção do padrão dos produtos, mesmo diante da pressão sobre custos.
Preços variam conforme estratégia das marcas
Levantamento de mercado mostra que os reajustes de preços não foram homogêneos entre os principais produtos. Há diferenças relevantes de acordo com a marca, o tamanho e o posicionamento de cada item.
Entre os aumentos mais expressivos está o ovo Lacta Favoritos 540g, que passou de R$ 88 para R$ 120. O Lacta Sonho de Valsa 277g também teve alta significativa, subindo de R$ 42 para R$ 57. Ambos registram elevações superiores a 35%.
Em contraste, alguns produtos tiveram variações mais moderadas. O Nestlé KitKat 332g passou de R$ 68 para R$ 70, enquanto o Ferrero Rocher 225g subiu de R$ 107 para R$ 115. Nesses casos, o reajuste ficou abaixo de dois dígitos.
As diferenças refletem a capacidade de cada empresa de absorver parte dos custos, além de estratégias comerciais adotadas para preservar vendas.
Páscoa mais cara e consumo mais seletivo
Com os preços em alta, a tendência é de um consumidor mais seletivo em 2026. Parte das famílias deve reduzir a quantidade de ovos comprados ou optar por alternativas mais baratas.
Para a indústria, o desafio é manter o volume de vendas em um cenário menos favorável. Embalagens menores, promoções e maior diversificação de produtos devem ganhar espaço nas gôndolas.
O comportamento do mercado de cacau e eventuais revisões nas regras de importação serão determinantes para os próximos meses. Até lá, o setor segue ajustando produção e preços em um ambiente que ainda combina incerteza e custos elevados.
Fonte: Gazeta de São Paulo
Foto: https://br.freepik.com/fotos-premium/ovos-de-pascoa-de-chocolate-e-doces-em-fundo-de-madeira_49017281.htm









